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Enquanto tentava organizar meu blog, ontem à tarde, buscando compreender o modo operacional do WordPress, um leitor surgiu inesperadamente e comentou meu texto inicial em um post-teste. Apaguei o post sem perceber, mas, felizmente o comentário foi parar no meu e-mail e é em resposta a ele que estou escrevendo.
O leitor, Lucian F (?), que, aliás, possui um blog bem interessante sobre filmes (leiam: Já viu esse), queria saber como eu pretendia lutar contra as injustiças do mundo em uma pós de moda. Acredito que outras pessoas que, por ventura, entrem aqui tenham a mesma dúvida, por isso decidi fazer um post e não apenas responder a ele.

A principio a moda parece não ter muita importância na vida das pessoas que não estejam de fato interessadas nela. Porém, esse mercado mexe mais com a nossa vida do que supomos. E nem estou falando aqui da importância do vestuário como fator influenciador dos relacionamentos sociais ou o que possa advir disso (o que já é bem relevante). Mas, de algo maior, algo que movimenta a economia, a cultura, a política, e que pode gerar mudanças ambientais consideráveis.
Ao mobilizar tantos campos não é mero acaso o número de danos e injustiças que – direta ou indiretamente – ela pode causar.
O setor têxtil, por exemplo, é um dos grandes responsáveis pela poluição em meios hídricos, uma vez que gera elevados volumes de efluentes que não são corretamente tratados, causando assim danos a saúde do homem e de seu ecossistema. Apesar da preocupação com a sustentabilidade tão proclamada por grande parte das indústrias esse é um problema que está longe de acabar. Assim como parece também estar longe do fim a utilização de peles de animais que, apesar de todos os esforços do PETA (People for the Ethical Treatment of Animals), continuam sendo utilizadas. Aliás, nessa temporada elas voltaram com força total até mesmo em passarelas tupiniquins
Outra importante questão relativa ao mundo fashion é a utilização de mão-de-obra escrava nas linhas de produção. Apesar da escravidão ter sido abolida há mais de 120 anos (no Brasil) ela ainda “é uma realidade comum nas oficinas de costura situadas na Zona Norte e no Centro da cidade de São Paulo, onde é produzida boa parte das roupas vendidas em grandes magazines, lojas de rua e até de shoppings centers do país. Estima-se que existam 100 mil bolivianos trabalhando em condições análogas à escravidão em 8 mil pequenas confecções na capital paulistana”, segundo uma matéria da Marie Claire. Ou seja, há muita coisa a ser modificada ou pelo que lutar nesse universo, não é? E, como tudo na vida, para entrar em um combate é preciso, antes de mais nada, conhecer bem nosso adversário. Por isso, e também por uma irresistível atração e curiosidade pela sua estética, além da falta de cursos de especialização em conflitos, decidi cursar moda
De qualquer forma, eu ainda queria ser correspondente de guerra até quase o fim da especialização. Só desisti de viver em locais de conflito quando me apaixonei por meu namorado que me mostrou outras realidades e provocou uma tremenda revolução mental da qual, dois anos depois, ainda não me recuperei. Mas essa já é uma outra história.
Agora, só pra concluir o raciocínio inicial de todo esse tratado, preciso explicar que o termo Moda abrange muito mais do que vestuário e derivados dele. Ela dita comportamentos e influencia setores que a principio não teriam nenhuma relação entre si. Talvez venha um pouco daí seu poder de atração.
Design, arquitetura, arte, alimentação (preocupação com a silhueta) e até mesmo a engenharia já são “amigas íntimas” neste universo, mas o que dizer de áreas como biologia, genética e carpintaria? Todas altamente influenciadas e influenciadoras da moda. Não é à toa que ela vem ocupando tanto espaço na mídia nos últimos anos. Afinal, “manifesto da vida sob todas as formas, maneira de ser e de se comportar, a moda constitui de fato um observatório privilegiado do ambiente político, econômico e cultural de uma época”, Dominique Veillon*.

*A citação de Dominique Veillon é do livro La mode sous l’occupation, de 1990, lançado no Brasil em 2004 pela editora Zahar com tradução de André Telles sob o título de Moda e Guerra: um retrato da França ocupada.

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